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Stenio Torres Cave


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*O DELICADO CORPO, COBERTO DE PLUMAS*
27/07/2016 às 22:22

Um enorme grito levantou-se das docas e matadouros, e Morte, cansada de queixas e abusos constantes, retirou-se para o seu abrigo subterr√Ęneo. Ainda era jovem, e seu trabalho, um tormento. Por toda parte, com sua eletricidade cortada, as pessoas paravam como bondes. Sua gravidade roubada, come√ßaram a flutuar. Sem o poder de flutuar, come√ßaram a afundar. Cada pessoa virou um quarto de solteiro apagado. A m√£o pressionando firmemente seus rins sumiu de repente e as pessoas giraram at√© parar como p√©talas ca√≠das de uma flor. Para que a pressa? Porque sair da cama? As pessoas sa√≠ram dos trens, dos metr√īs, para fora dos metr√īs, todas na mesma parada. Por toda parte, os rel√≥gios suspenderam seu ritmo nas lojas de antiguidades, enquanto seus ponteiros se compunham para dormir. Sem tempo nem decad√™ncia, as pessoas ficaram menos belas. Pararam de comer e come√ßaram a estudar os pr√≥prios p√©s. Pararam de dormir e passavam semanas seguindo c√£es vadios. Os primeiros a reagir foram os que restavam da igreja. Falsificaram milagres, exibiram padres posando como cad√°veres at√© que, finalmente, espirravam ou come√ßavam a se sentir s√≥s. Ent√£o os governos convocaram elei√ß√Ķes especiais para escolher aqueles que iriam engrossar as fileiras de mortos volunt√°rios, gente infeliz for√ßada a sentar-se em cadeiras duras por anos a fio. O interesse logo diminuiu. Ent√£o o ex√©rcito tomou o poder e soldados correram pela rua pintando os vivos com tinta vermelha. Voc√™ est√° morto, diziam. Talvez amanh√£, respondiam as pessoas, hoje s√≥ estamos respirando; olhe o c√©u, olhe a cor da grama. Pois sem morte cada cor ficar√° mais viva. Por fim, uma comiss√£o de homens de neg√≥cios se reuniu, porque sem Morte o dinheiro n√£o tinha mais valor. Foram at√© onde Morte estava esperando num quarto branco, e ele estava sentado no ch√£o e parecia um menino pequeno de cabelo muito louro e olhos da cor de √°gua clara. No seu colo estava uma bola vermelha pesada com aus√™ncia de vida. Os homens de neg√≥cio o bajularam. Faremos de voc√™ rei, disseram. Eu j√° sou rei, respondeu Morte. Imprimiremos sua Ef√≠gie em todo dinheiro do mundo. J√° est√° l√°, respondeu Morte. Adoramos voc√™ e n√£o viveremos sem voc√™, disseram os homens de neg√≥cios. E morte disse, vou examinar sua proposta. No princ√≠pio, as criaturas menores come√ßaram a morrer, bact√©rias e insetos. Ningu√©m notou. Ent√£o os peixes come√ßaram a flutuar para a superf√≠cie; lagartos e r√£s ca√≠ram das rochas banhadas de sol. Ainda ningu√©m os viu. Ent√£o p√°ssaros come√ßaram a desabar do ar, e como a luz do sol brilhava sobre as penas azuis do galo, marrons do falc√£o, brancas da pomba, ent√£o as pessoas levantaram as suas cabe√ßas e apontaram para o c√©u e das ruas sedentas de gritos de boas-vindas se elevaram como uma rede para pegarem os corpos delicados caindo suavemente. STEPHEN DOBYNS

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